sábado, 10 de outubro de 2020

A Guerra Pelo Imaginário Infantil: Como os Desenhos Animados Ajudam a Moldar Visões de Mundo

Desde que, na virada dos anos 1990, a TV se tornou meio de comunicação de massa, os desenhos animados se tornaram praticamente a primeira experiência estética de uma criança comum nas sociedades ocidentais. É a partir deles que sua sensibilidade artística, e, por extensão, sua visão de mundo, começa a ser moldada. A forma como um ser humano apreende o belo e sua capacidade de distingui-lo do feio diz muito sobre sua capacidade de distinguir também o bom e o justo.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Por que Marxismo Cultural?


Nem o mais intransigente crítico do marxismo pode negar sua capacidade de propaganda e sua resiliência no debate público. Mesmo depois de tudo que as “deturpações das idéias de Marx” causaram ao mundo no século XX, a concepção de socialismo no senso comum ainda é, em boa medida, associada a uma imagem de preocupação com os pobres, justiça social e fraternidade. Por bem menos o nacional-socialismo foi (com toda a razão, sempre é bom lembrar) condenado ao ostracismo e lançado com violência para fora do escopo do que se considera aceitável na opinião pública. Provavelmente é por isso que não é difícil encontrar quem associe o capitalismo a tudo que há de ruim e, principalmente, veja no marxismo algo cuja raison d’etre seja destruí-lo. Não que isso não esteja em seu plano de ação. A questão é que uma análise mais atenta da teoria marxista revela que seu objetivo principal é outro.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Método Ludovico Ao Contrário




“Os jovens hoje não conhecem a disciplina. Eu tento dar o exemplo, mas tá difícil. Pessoalmente, eu culpo a MTV”. 

A fala é do ditador liberiano Andre Baptiste, ao atirar num jovem subordinado por flertar com uma funcionária em sua presença durante uma negociação de venda de armas com o protagonista de O Senhor das Armas. O deboche da alegoria de Charles Taylor é um indício de que a associação entre comportamento antissocial juvenil e a influência da MTV já faz parte do senso comum. Mais do que isso, trai um sentimento que é próprio de quem percebe na mídia de massa dos anos 90 a incubadora do ataque cultural de inversão de valores que vem tomando forma desde o estabelecimento da TV como meio de comunicação de massa após a queda do Muro de Berlim. 

terça-feira, 7 de julho de 2020

Uma Dúvida Sincera



Quando Zeca Camargo revelou ter bebido da taça de um Cazuza que acabara de revelar sofrer de AIDS, houve quem visse ali um lindo gesto de tolerância, um manifesto progressista contra o preconceito com portadores de HIV. Pouco importa se o cantor tivesse, na ocasião, alguma lesão na língua, na mucosa oral ou na gengiva que porventura fizesse seu sangue entrar em contato com a bebida. A decisão do entrevistador não foi afetação de virtude, mas um ato de coragem e desprendimento. Qualquer um sabe que a doença não se transmite por meio de uma taça de vinho e quem quer que tenha a audácia de temer pela própria saúde e recuse compartilhar um copo com um aidético não é alguém com receio de contrair o vírus, mas um nazista, preconceituoso e obscurantista que quer confinar doentes num gulag.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Vanitas: Uma Breve História do Espírito de Classe Média



"Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade."
Eclesiastes 1:2

Em seu clássico As Idéias Têm Consequências Richard M. Weaver sugere que a origem sentimental, por assim dizer, do movimento romântico nas artes é o estranhamento e o mal estar de uma classe média recém-letrada e recém-urbanizada, proveniente de um ambiente rural aristocrático, diante da mecanização do mundo provocada pela revolução industrial. É o deslumbramento desses descendentes de agricultores recém-alfabetizados, órfãos de uma vida mais próxima da natureza e, por isso, tendentes a romantizar um bucolismo rural pauperizado como ideal de vida em sociedade, a pedra fundamental da crítica social ao capitalismo, mote da então nascente esquerda organizada.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Um NOVO PRONA



“(...) o orgulho dos plebeus ricos ou recém-nobilitados cresceu com a causa que os ensejava. Sentiam com ressentimento uma inferioridade cujos fundamentos não conheciam. Não havia mais nada que não estivessem dispostos a fazer para vingar-se dos ultrajes sofridos e elevar sua riqueza ao que eles consideravam ser seu natural status e justo valor.”
Edmund Burke, Reflexões Sobre a Revolução na França.

“Todos os estabelecimentos franceses coroam a infelicidade do povo (...). É preciso renová-los (...) mudar os homens, as coisas; alterar as palavras; (...) destruir tudo, pois é preciso refazer tudo”. A frase, creditada a Rabaut Saint-Etienne, presidente da Assembléia Nacional, expressa muito claramente o zeitgeist de ruptura total com o passado que foi a marca registrada da Revolução Francesa. Pra todos os efeitos o evento significou um ponto de não retorno na história ocidental. A partir dali o espectro político admissível, ou Janela de Overton pra usar o termo técnico, ficaria confinado inteiramente ao campo ideológico sustentado sobre dois pilares: a ideologia do Progresso e a Modernidade. Tanto a direita quanto a esquerda, independente da forma como sejam definidas, têm, de um jeito ou de outro seu DNA filosófico ancorado nesses dois conceitos. Mesmo os partidários da ordem pré-moderna (conservadores), tanto refratários à ideologia do progresso quanto céticos a respeito da Modernidade, tiveram que buscar guarida num dos dois pólos sob pena de se verem excluídos do debate público.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

O Cisma Real


Na língua inglesa o pronome “eu” é o único grafado em maiúscula em qualquer parte do texto, independentemente se sucede o ponto ou não. Por trás do que parece uma simples curiosidade se esconde uma razão bem mais profunda, que simboliza uma mudança sem paralelo na história da humanidade: a primeira pessoa sempre em maiúscula é uma marca, forjada na linguagem, do triunfo de uma visão de mundo cujo emblema é a marginalização do aspecto transcendente da existência em favor do culto pagão ao indivíduo, de modo a fazer deste o centro e a medida de todas as coisas. A única outra situação em que se admite pronomes escritos em maiúsculas é quando se referem diretamente ao próprio Deus cristão (Seu, Ele...)