domingo, 14 de maio de 2023

Os Pais do Holocausto: Como o Combate à Noção Cristã de Sacralidade da Vida Humana Levou o Ocidente à Barbárie

 


“(...) Pois eu estava com fome e vocês me deram de comer; eu estava com sede e me deram de beber; eu era estrangeiro e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa e me vestiram; eu estava doente e cuidaram de mim; eu estava na prisão e vocês foram me visitar. (...) Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram.”

Mateus 25; 35-40

        A série Hunters, do Amazon Prime, conta a história de um grupo de judeus caçadores de ex-nazistas que escaparam do tribunal de Nuremberg e conseguiram se estabelecer nos EUA da década de 1970. À medida que a trama se desenrola, o espectador é apresentado a uma organização que busca infiltrar neonazistas na burocracia governamental americana a fim de erigir o Quarto Reich no país.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

E Agora?



154 mil inserções de rádio a menos para Bolsonaro só nas duas primeiras semanas do segundo turno, situação em que o TSE, além de ignorar as provas, passou a ameaçar a campanha prejudicada. 37 pedidos do PT de remoção de supostas “fakenews” atendidos contra apenas 6 do outro lado. Campanha de Bolsonaro impedida de rotular Lula de abortista e corrupto (a despeito da torrente de registros), enquanto os apoiadores de Lula com total liberdade para chamar o presidente de genocida (como se ele fosse o responsável pela morte de 600 mil pessoas na pandemia e não um vírus criminosamente espalhado pela ditadura chinesa, da qual, aliás, ninguém lembra), isso para dar apenas alguns exemplos. E, como a cereja do bolo, todo processo eleitoral conduzido por um ministro que parece ter sido escolhido para a função em virtude de seu histórico de arbitrariedades e ilegalidades cometidas, sempre, contra os apoiadores do governo.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Os Cegos e o Elefante

 


No conto A Roupa Nova do Rei o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen narra a inusitada situação em que um rei, enganado por dois vigaristas se passando por alfaiates, sai às ruas de ceroulas, acreditando-se vestido num manto confeccionado de um tecido mágico, visível apenas às pessoas inteligentes. Ao tomar conhecimento da situação, as pessoas precisam negar a evidência empírica fornecida pelos próprios olhos por mera pressão social, afinal ninguém quer passar por tolo. A redoma de autoilusão se mostraria resistente a quase tudo, menos à inocência da criança que, percebendo a bizarrice da situação, apontou o dedo e, às gargalhadas, falou o que ninguém tinha coragem: O rei está nu!

quinta-feira, 2 de junho de 2022

O Combate à Tradição

 


Na série Game of Thrones o Rei da Noite, vilão principal da trama, tem por objetivo dar cabo da vida de Brandon Stark, que fica paraplégico após uma tentativa de homicídio, vindo a se tornar o que chamam de Corvo de Três Olhos. Trata-se de um personagem místico que tem a capacidade de percorrer livremente a história de Westeros, resgatando fatos do passado e antecipando o futuro, de modo que nada que se passou lhe escapa. Ele se torna a própria Memória daquele mundo. 

quarta-feira, 1 de junho de 2022

A Raiz Gnóstica da Revolta Contra a Realidade

 

“E Deus criou as baleias (...) e as aves de asas conforme a espécie de cada uma. E Deus viu que era bom.”

1 Gn, 21

A humilhação que as tentativas frustradas de remodelar o mundo impingem à húbris moderna enseja uma revolta contra a própria estrutura da realidade que teima em se impor a despeito das vontades humanas. Tal qual um Xerxes que mandou açoitar as águas do mar quando o mau tempo derrubou sua ponte sobre o atual Estreito de Dardanelos, praguejar contra o mundo apela a um instinto básico que persegue a humanidade desde a queda de Adão.

terça-feira, 31 de maio de 2022

A Peleja do Progressismo com a Realidade Objetiva: 1984 chegou

 


A modernidade legou ao ocidente uma mudança de perspectiva cujos efeitos se refletem até os dias atuais. Até então, as relações humanas se travavam sub specie aeternitatis, ou seja, do ponto de vista da eternidade. Quando a posição central que o Transcendente ocupava na mente humana deu lugar à era do império do indivíduo, o antigo éthos, cujo norte era a busca pela vida eterna, passou a orbitar em torno da satisfação dos desejos humanos. A partir de então, tudo passou a ser admitido no sentido de atingir esse objetivo, inclusive o empenho de alterar a realidade objetiva.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

A Guerra contra as Palavras

 

Na obra 1984, George Orwell mostra como o sentido das palavras é o próprio substrato da realidade na mente humana. Na narrativa, um governo totalitário investe reiteradamente na manipulação do vocabulário corrente com o intuito de adulterar a percepção da realidade das pessoas. Isso se dá, basicamente de duas maneiras.

domingo, 29 de maio de 2022

Mídia Progressista, Propaganda Soviética

 


                As fotos famosas, que originalmente exibiam Nicolai Yezhov e Trotsky ao lado, respectivamente, de Stálin e Lênin, e cujas imagens foram apagadas depois que caíram em desgraça para dar a entender que nunca foram próximos aos líderes soviéticos, são apenas a materialização de séculos de filosofia intencionalmente desenvolvida para tornar possível a manipulação ostensiva da realidade. Sem a pedra fundamental lançada por Descartes e Ockham, a colossal máquina de propaganda dos regimes totalitários seria impossível. Como também o seria o formidável sistema progressista de inversão de valores que tomou de assalto os meios difusores de cultura do Ocidente.

sábado, 28 de maio de 2022

Filosofia para Negar a Realidade

 

O advento da Modernidade, no entanto, operou uma mudança drástica no modo como o mundo físico vinha sendo interpretado até então. A gênese filosófica do giro de 180º que o pensamento ocidental experimentaria daí em diante remete a dois filósofos em particular: René Descartes e Guilherme de Ockham. A partir de então, a interpretação do mundo não mais estaria sujeita à tirania da realidade objetiva. Daí em diante a tônica do pensamento ocidental seria a concepção do mundo como idéia.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

O Teste Platônico


 

O fato de a realidade ser independente das percepções sensoriais humanas deveria ser suficiente para que ela fosse universalmente assimilada e interpretada da mesma forma. A experiência empírica, no entanto, não corrobora a tese, e isso por uma razão muito simples: a razão humana depende dos órgãos dos sentidos, que são frágeis e facilmente corruptíveis.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Do Desbunde ao Defunto: A Ressaca da Utopia



“Não estamos mais em 1967, Gemma. A vida já não é mais romântica e livre. Nada mais faz sentido. É tudo sujo e triste. E sabemos que isso só piora.”

O niilismo desolado na fala do moribundo Wayne Unser, ex-xerife da fictícia Charming, onde se passa a trama de Sons of Anarchy (SoA), é um retrato fidedigno do sentimento de desilusão que se apossou do imaginário popular ocidental quando as chamadas metanarrativas que prometiam um reino de paz e prosperidade sobre a terra, erguido sob os auspícios da técnica e longe da repressão moral do Cristianismo, se provaram não ser o Deus ex-machina em que os progressistas depositavam sua fé secular.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

A Origem do Globalismo na União Européia


 

“Eu percebia claramente, e fazia anos, que a distância crescente, agora abissal, entre a população e os que falavam em seu nome, políticos e jornalistas, deveria necessariamente levar a algo caótico, violento e imprevisível”.

Michel Houellebcq, Submissão

Nos quatro séculos (1583-1997) de história do empreendimento colonial britânico, poucas vezes o império esteve tão ameaçado quanto no motim de 1857. O estopim da revolta foi uma alteração no suprimento bélico do exército imperial indiano: os cartuchos de munição a partir de então seriam lubrificados com gordura animal. Como para usar o equipamento era necessário arrancar as pontas dos cartuchos com uma mordida, essa mudança acabou se configurando em algo intolerável para o grosso do contingente imperial no subcontinente: hindus, que nutrem devoção aos bovinos, e muçulmanos, para quem os suínos são considerados animais impuros.

sábado, 10 de outubro de 2020

A Guerra Pelo Imaginário Infantil: Como os Desenhos Animados Ajudam a Moldar Visões de Mundo

Desde que, na virada dos anos 1990, a TV se tornou meio de comunicação de massa, os desenhos animados se tornaram praticamente a primeira experiência estética de uma criança comum nas sociedades ocidentais. É a partir deles que sua sensibilidade artística, e, por extensão, sua visão de mundo, começa a ser moldada. A forma como um ser humano apreende o belo e sua capacidade de distingui-lo do feio diz muito sobre sua capacidade de distinguir também o bom e o justo.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Por que Marxismo Cultural?


Nem o mais intransigente crítico do marxismo pode negar sua capacidade de propaganda e sua resiliência no debate público. Mesmo depois de tudo que as “deturpações das idéias de Marx” causaram ao mundo no século XX, a concepção de socialismo no senso comum ainda é, em boa medida, associada a uma imagem de preocupação com os pobres, justiça social e fraternidade. Por bem menos o nacional-socialismo foi (com toda a razão, sempre é bom lembrar) condenado ao ostracismo e lançado com violência para fora do escopo do que se considera aceitável na opinião pública. Provavelmente é por isso que não é difícil encontrar quem associe o capitalismo a tudo que há de ruim e, principalmente, veja no marxismo algo cuja raison d’etre seja destruí-lo. Não que isso não esteja em seu plano de ação. A questão é que uma análise mais atenta da teoria marxista revela que seu objetivo principal é outro.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Método Ludovico Ao Contrário




“Os jovens hoje não conhecem a disciplina. Eu tento dar o exemplo, mas tá difícil. Pessoalmente, eu culpo a MTV”. 

A fala é do ditador liberiano Andre Baptiste, ao atirar num jovem subordinado por flertar com uma funcionária em sua presença durante uma negociação de venda de armas com o protagonista de O Senhor das Armas. O deboche da alegoria de Charles Taylor é um indício de que a associação entre comportamento antissocial juvenil e a influência da MTV já faz parte do senso comum. Mais do que isso, trai um sentimento que é próprio de quem percebe na mídia de massa dos anos 90 a incubadora do ataque cultural de inversão de valores que vem tomando forma desde o estabelecimento da TV como meio de comunicação de massa após a queda do Muro de Berlim. 

terça-feira, 7 de julho de 2020

Uma Dúvida Sincera



Quando Zeca Camargo revelou ter bebido da taça de um Cazuza que acabara de revelar sofrer de AIDS, houve quem visse ali um lindo gesto de tolerância, um manifesto progressista contra o preconceito com portadores de HIV. Pouco importa se o cantor tivesse, na ocasião, alguma lesão na língua, na mucosa oral ou na gengiva que porventura fizesse seu sangue entrar em contato com a bebida. A decisão do entrevistador não foi afetação de virtude, mas um ato de coragem e desprendimento. Qualquer um sabe que a doença não se transmite por meio de uma taça de vinho e quem quer que tenha a audácia de temer pela própria saúde e recuse compartilhar um copo com um aidético não é alguém com receio de contrair o vírus, mas um nazista, preconceituoso e obscurantista que quer confinar doentes num gulag.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Vanitas: Uma Breve História do Espírito de Classe Média



"Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade."
Eclesiastes 1:2

Em seu clássico As Idéias Têm Consequências Richard M. Weaver sugere que a origem sentimental, por assim dizer, do movimento romântico nas artes é o estranhamento e o mal estar de uma classe média recém-letrada e recém-urbanizada, proveniente de um ambiente rural aristocrático, diante da mecanização do mundo provocada pela revolução industrial. É o deslumbramento desses descendentes de agricultores recém-alfabetizados, órfãos de uma vida mais próxima da natureza e, por isso, tendentes a romantizar um bucolismo rural pauperizado como ideal de vida em sociedade, a pedra fundamental da crítica social ao capitalismo, mote da então nascente esquerda organizada.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Um NOVO PRONA



“(...) o orgulho dos plebeus ricos ou recém-nobilitados cresceu com a causa que os ensejava. Sentiam com ressentimento uma inferioridade cujos fundamentos não conheciam. Não havia mais nada que não estivessem dispostos a fazer para vingar-se dos ultrajes sofridos e elevar sua riqueza ao que eles consideravam ser seu natural status e justo valor.”
Edmund Burke, Reflexões Sobre a Revolução na França.

“Todos os estabelecimentos franceses coroam a infelicidade do povo (...). É preciso renová-los (...) mudar os homens, as coisas; alterar as palavras; (...) destruir tudo, pois é preciso refazer tudo”. A frase, creditada a Rabaut Saint-Etienne, presidente da Assembléia Nacional, expressa muito claramente o zeitgeist de ruptura total com o passado que foi a marca registrada da Revolução Francesa. Pra todos os efeitos o evento significou um ponto de não retorno na história ocidental. A partir dali o espectro político admissível, ou Janela de Overton pra usar o termo técnico, ficaria confinado inteiramente ao campo ideológico sustentado sobre dois pilares: a ideologia do Progresso e a Modernidade. Tanto a direita quanto a esquerda, independente da forma como sejam definidas, têm, de um jeito ou de outro seu DNA filosófico ancorado nesses dois conceitos. Mesmo os partidários da ordem pré-moderna (conservadores), tanto refratários à ideologia do progresso quanto céticos a respeito da Modernidade, tiveram que buscar guarida num dos dois pólos sob pena de se verem excluídos do debate público.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

O Cisma Real


Na língua inglesa o pronome “eu” é o único grafado em maiúscula em qualquer parte do texto, independentemente se sucede o ponto ou não. Por trás do que parece uma simples curiosidade se esconde uma razão bem mais profunda, que simboliza uma mudança sem paralelo na história da humanidade: a primeira pessoa sempre em maiúscula é uma marca, forjada na linguagem, do triunfo de uma visão de mundo cujo emblema é a marginalização do aspecto transcendente da existência em favor do culto pagão ao indivíduo, de modo a fazer deste o centro e a medida de todas as coisas. A única outra situação em que se admite pronomes escritos em maiúsculas é quando se referem diretamente ao próprio Deus cristão (Seu, Ele...)